quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Dr. Dantas faz 90 anos!

Doutor Dantas foi uma figura mitológica da minha infância. Meus pais e avós sempre se referiram a ele com muito reverente respeito, acentuando a figura do grande médico que salvou muitas vidas naquele sertão de Urandi e redondezas. Eis que agora recebo do seu filho, o maestro Fred Dantas, o comunicado dos seus 90 anos. É com muita honra que publico aqui o texto que me enviou.

Fred Dantas
O dia 3 de Dezembro de 2008 é muito importante para a humanidade. Nesta data Dr. Dorivaldo Dantas completa 90 anos. Sem receio de parecer exagerado ou por demais emotivo, diria que, hoje, o ciclo previsto pelo Criador para o ser humano chega a um êxito fantástico.
Um homem, uma pessoa, um filho de Deus nasce, tem lá sua primeira infância, depois torna-se um estudante exemplar, por fim ingressando na honrosa e bicentenária Faculdade de Medicina da Bahia, onde se diplomou em 1944. Conhece uma linda jovem, Edith, com ela se casa e tem quatro filhos.
Enquanto isso, como profissional, constrói uma carreira exemplar, especializando-se em Pedriatria. Colega e contemporâneo de outros referenciais da medicina, como José Silveira e Paulo Jesuíno, optou por tornar-se um médico-sacerdote do povo do interior. Em Urandi, fronteira da Bahia com Minas, torna-se um mito de eficiência e caridade. Há quatro anos o Cremeb lhe outorgou prêmio por 50 anos de exercício da Medicina sem sofrer qualquer censura.
Atravessou a fase tardia dos coronéis, dos currais eleitorais, do Estado Novo, da democracia, da ditadura, da democracia de novo, sem nunca declarar apoio explícito a candidato algum. Seu atendimento se dirigia às pessoas, fossem elas de que corrente fossem. Jamais se beneficiou de indicações, conchavos ou imediatismos políticos, aposentando-se finalmente como médico do SUS, com vencimentos aviltantes em relação a tudo o que trabalhou.
Também nunca tive conhecimento de brigas públicas, disputa judicial, luta por espólios, intrigas, inimizades, tudo isso se constituiu em palavras estranhas ao admirável mundo construído por Dr. Dantas. Acostumei-me, ao contrário, a ouvir bênçãos de pessoas humildes, declarações de reconhecimentos de alunos, elogios derramados de políticos, companheirismo e fidelidade dos amigos.
Dr. Dantas, enquanto morador de pequena localidade, nunca se furtou a leituras atualizadas, sendo assinante, pelo que me lembro da minha infância, de revistas como Time, Life (que vinham pelo correio dos Estados Unidos), Manchete, O Cruzeiro e Visão, tornando-se depois assinante de Veja, até a atualidade. Quando em Urandi havia cinema, os proprietários eram moralmente obrigados a solicitar filmes que o meu pai indicava, tornando possível lá se assistir, pouco tempo depois de lançados, filmes clássicos como Os Girassóis da Rússia, a Megera Domada ou, no caso brasileiro, Tocaia no Asfalto e Mineirinho Vivo ou Morto, ao lado daqueles faroestes com trilha sonora de Morricone.
Por sua admiração declarada a J. F. Kennedy e à cultura dominante nos anos 1960, mereceu dos estudantes o apelido de “o americano”. Padres, missionários, empresários ou engenheiros de mineração que porventura residiram ou trabalham em Urandi por breve tempo, têm encontrado em Dr. Dantas um interlocutor dinâmico, apto a uma boa conversação em inglês e eleitor virtual de Obama, ainda mais porque em sua longa atenção à política norte-americana, nunca tolerou os republicanos.
Mas não pense que irá encontrar nessa prosa um defensor intransigente de assunto qualquer, de tal teoria ou causa. Irá achar, com prazer, um interlocutor vivo sobre qualquer assunto que não venha de ou acarrete problemas. Aí vale a situação do Esporte Clube Bahia, de quem é torcedor há oito décadas, a novela, o último escândalo político-financeiro, a crise, a vida dos outros. E, qual seja o assunto, nada vale se não for acompanhado de certa quantidade de riso e humor inteligente.
Uma vida longa e cheia de trabalho como esta pode servir, para pessoas de boa vontade, de link, de elo para diversos assuntos correlatos como, por exemplo:
A origem familiar nunca enfatizada. De como o meu avô Pedro Dantas nunca cultivou espécie nenhuma de laço com a família de origem. Ao contrário, ao se transferir de Itapicuru para Curaçá, já nas beiras do São Francisco, se dirigiu a um cartório e mandou retirar o Martins do nome, ficando apenas Pedro Dantas. Em Bonfim foi dono do cinema e comerciante de tecidos, e lá nasceram Dorivaldo e Dora.
Esta origem nos remete a investigar o próprio Sertão, o curioso fenômeno do baronato de Cícero Dantas, a construção do seu sonho de grandeza em meio à caatinga, a invasão da fazenda Canudos, pertencente a um seu genro, por Antônio Conselheiro e, por conseguinte, seu papel como incitador da Guerra de Canudos. As fotos da época nos inspiram a compreender o fenômeno das cidades clássicas, sua cultura idealizada e suas filarmônicas. Numa delas, a 15 de março, apelidada de “monarquia”, o meu avô tocou trompete.
Depois, a juventude de Dori em Salvador nos remete a uma efervescente vida urbana, em uma cidade de clima ameno, praças arborizada, cercada de florestas e roças estonteantes. A Rua Chile era o point. As Festas da Mocidade, a balada. Carlos Chiacchio era o intelectual, enquanto Zé Coió, era o grande e temido crítico de auditório. O Campo da Pólvora era dos namoros, a longínqua Itapoã, dos veraneios.
Sua convocação para o Exército, em plena II guerra Mundial, nos remete para um mundo em convulsão, o coração partido da noiva, o treinamento rigoroso. Patrulhas da costa brasileira, metralhadora ponto 40 sempre em alerta. Como meu pai se lamenta de ter metralhado uma baleia, na paranóia de um submarino alemão! Então vem o Fim da Guerra às vésperas do Embarque para a Itália. Depois, o mundo em festa, a formatura, o casamento afinal.
Sua participação na construção da Estrada de Ferro Norte-sul, um esforço de Guerra, se constitui num grandioso capítulo de heroísmo e obstinação, onde fulguram nomes como Vasco Neto, Dr. Mário Paula, Engenheiro Oscar... Essa estrada, cortando abismos e montanhas em tese intransponíveis, o levou a Urandi, onde permaneceu.
O exercício da medicina em uma cidade do interior, seus desafios, suas carências, seus momentos de poesia e reconhecimento por parte do povo, tudo isso será fonte de estudos ao se perscrutar a atividade profissional de Dr. Dantas. Ao solucionar casos desenganados nos grandes centros urbanos, tornou-se referência em São Paulo. Ao determinar em poucos minutos o mal, com o cabedal da experiência, criou fama de milagreiro, o que, aliás, detesta. Ao acudir com presteza à emergência, tornou-se médico pessoal de meio-mundo de gente. Ao saber de tudo um pouco, economiza exames de laboratório ao simples exame visual de uma pálpebra ou de uma língua. Isso cria mito e o mito foi criado, queira ou não o médico.
A fundação do Ginásio de Urandi foi um feito comparável, no terreno do pioneirismo cultural, a construir estrada de ferro sobre abismos. Junto a outros cidadãos notáveis da sua cidade, como Theodolindo, Tideca, Luis Gomes, Zé Brito, Tòzinho e outros Dr. Dantas se põe à frente de construir uma unidade de ensino referencial, com gestão independente das administrações municipal e estadual, e ao mesmo tempo não se configurando como ginásio particular. Seu ensino rigoroso e comprometido resultou em turmas e turmas de bem sucedidos profissionais, que até hoje agradecem e reconhecem a sólida formação adquirida no Ginásio de Urandi.
Não haveria como encerrar o presente texto se continuasse lembrar novas facetas do homem Dr. Dantas. Seu romance de 70 anos com sua gata, desculpem, a professora, Edith, e como criaram os filhos: Nádia, professora; Roberto e George, advogados e Fred, músico. O que fazem as filhas de consideração Dina, enfermeira, e Isaura, professora.
Depois, numa longa fila para lhe dar esse beijo de 90 anos, doutor, estão os diversos netos e agora bisnetos. Quando eles derem espaço, vêm os amigos do peito, companheiros de longa data, representados por Amaurílio e Sinhôda. Os próximos a lhe dar esse grande abraço são os moradores de Urandi, e também gente da roça, trazendo galinha, feijão verde, milho...
Depois vem toda a população do Sudoeste, gente de Guanambi, Caetité, Pindaí, Jacarací, Licínio de Almeida,e também de Espinosa e Monte Azul, já em Minas. Que fila enorme! Todos querendo apertar as mão de quem lhes tirou, abaixo de Deus, a dor, a preocupação, o medo e a doença. Afinal, meu pai, em certo momento a mão de Deus e as suas de certo modo se completam; acostumei-me a ler no vidro do seu carro o adesivo: sanare dolorem opus divinum est.
Efetivamente “já lhe falei de tudo, mas tudo isso é pouco diante do que sinto”. Falei tanto sobre doutor que deixarei para depois, em novo momento, para falar do meu pai, do orgulho que sinto em ser filho de Dr. Dantas, “Fred de Dr. Dantas”. De como me sentia e sinto ainda, forte e seguro quando estou junto a ele. Do exemplo de vida. Da firmeza de caráter. Do amor, finalmente, à vida, à natureza e à humanidade.
Salvador, Dezembro de 2008

5 comentários:

Vania disse...

Quisera todo pai receber essa linda homenagem. Mas nem todo filho tem um pai como o Dr. Dantas, não é verdade? E nem todo filho tem a sensibilidade para escrever com tanta simplicidade e beleza sobre aquele a quem o Pai criador lhe reservou a benção de lhe dar a vida.
Vânia Queirós Gonçalves

Anônimo disse...

EU MARTHA ROCHA sei e ouvir e aindo ouço a minha mãe comentando sobre DR. DANTAS o qual tambem criou o meu primo o saUdoso IRUNDI neto da saudosa EULALHIA sao muitas historias dos cuidados q ele teve com pessoas humildes da roça parabens DR. DANTAS S BAHIA

juninho disse...

Parabens fred,sou filhoo desta terra, nacido em licinio de Almeida,estou emocionado por ter encontrado em meio de tantos comentários de nossa mídia virtual uma história linda falando de uma pessôa generosa e culta como o Dr. Dantas.Digo isso porque este homem foi o primeiro médico a mim fazer exame admicional para iniciar minha carreira proficional em uma empresa chamada de MINERAÇÃO URANDI S.A.Obrigado...

JOÃO EZEQUIEL disse...

Parabéns Fred pela homenagem feita ao seu pai, nos urandienses é sabedores o quanto Dr. Dantas foi e é importante na vida do povo da nossa municipalidade. Dedicou a sua vida em servi aos seus munícipes com prazer e sabedoria sem distinção, com recurso financeiro para uma consulta ou não todos seriam atendidos e ao terminar a consulta saem satisfeitos e orgulhosos por ter passado pelos seus conhecimentos e receber as instruções como curar a sua enfermidade.
Quero nessa oportunidade parabenizar a Dr. Dantas pelos 90 anos bem vividos em uma Urandi que aprendeu amar. Em nome da família Leão e Ezequiel, família essas muito juntas a família dos Dantas, em que Fred conviveu a sua infância e cresceu com sua amizade na Casa do Sr. Idilbaldo Leão.
att. João Ezequiel Filho

Anônimo disse...

sou de urandi tenho maior orgulho de ter conhecido dr dantas,poi meu pai sempre falava com adimiração e respeito por esse ilustre homem ex de vida
at valdete b. santana
sorocaba
sp.