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sexta-feira, 23 de abril de 2010

Do paroxismo entre os artrópodes


Todos conhecemos a fábula da cigarra e da formiga. Enquanto a primeira cantava no verão, inundando nossos corações com sua alegria, a formiga trabalhava, escrava da rainha, mais valia altíssima sempre, no limiar do lumpezinato. A versão original premiava a formiga com uma despensa cheia de comida durante o inverno, sendo abordada pela cigarra, à qual decide não ajudar. "Enquanto vc cantava eu trabalhava..."
A imaginação humana criou várias versões para esse final infeliz, moralista e nos mostra, ao contrário, a cigarra famosíssima, passeando num carrão de luxo, enquanto a formiga pobrinha, tentando se aquecer no fraco fogo que conseguiu amealhar com a pouca lenha que tinha.
Juro que gosto mais da segunda versão (existem outras, vcs podem pesquisar, a que ela virou parte de uma dupla caipira e muitas mais, mas sempre bem-sucedida).
Gosto mais porque é menos moralista, não sou a favor do bonzinho sempre ser bem recompensado simplesmente porque na vida não é assim. Odeio a alienação da formiga, ignorante dos seus direitos e cumprindo o seu fatalista papel de escrava.
Mas isso são fábulas... Na vida real, a formiga continua se dando "de" bem (como reza agora a mais nova cartilha das gírias, nunca entendi por que esse "de" mas vamos lá. Conheço muito poucas pessoas que tem raiva de formiga. Conheço muitas pessoas que tem medo de barata, horror, nojo, tudo que é ruim. Sentem-se heróicas por salvarem uma formiga e absolutamente vingadas (?) por matarem uma barata.
Alguém pode me responder por quê?
RacionalmenteL: Baratas e formigas andam por lugares imundos, trazem essa imundície para nossa mesa e, ainda assim, preferimos as formigas. Questão de design, talvez?
Aceitamos hípóteses, teses, teorias, qualquer coisa que ajuda a esclarecer esse insondável mistério.

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domingo, 12 de agosto de 2007

A fábula das duas velhas ou A mulher que envelheceu de ciúme

Adolfo, 32 anos, foi à praia sozinho. Chegando lá, teve vontade de tomar uma cerveja em lata, mas acabou tomando duas. Como não tinha dinheiro nem para a primeira, pediu à vendedora, 65 anos, que lhe fizesse fiado e que ela poderia ir em sua casa cobrar.
Na outra semana Cristina, 25 anos, esposa de Adolfo, foi à praia, e como tinha dinheiro para tomar apenas uma cerveja não pôde assumir a dívida de Adolfo e, para não passar por má pagadora, resolver dar uma satisfação à vendedora e lhe disse: "Meu marido está lhe devendo duas cervejas, não é?". Ao que a vendedora respondeu: "É, e por sinal ele mandou eu ir em sua casa cobrar, mas como a senhora não estava, eu não quis ir". Ao que Cristina respondeu: "Mas eu não sou ciumenta", e a senhora: "Eu até falei com meu marido e ele achou certo eu não ir". Após a saída da senhora, Cristina começou a pensar melhor para entender o que ela queria dizer com isso. Surgiram duas hipóteses:
1. Que se Cristina chegasse de surpresa, vendo uma senhora de 65 anos nem tão estranha, já que ela a conhecia como vendedora de cerveja, fosse se incomodar, sentir ciúme.
2. Como a senhora tinha evocado a existência do marido, surge outra possibilidade: o medo de ser agarrada à força por Adolfo, casado, sozinho no apartamento.
Cristina a princípio achou um escândalo, aliás, dois escândalos: primeiro a senhora ainda se achar capaz de provocar ciúme em uma jovem mulher de 25 anos e, segundo e mais escandaloso: a senhora achar que poderia suscitar alguma espécie de tesão em um jovem rapaz de 32 anos.
Cristina, alarmada diante dessas alternativas, não mais deixou Adolfo ir à praia sozinho, nem ficar sozinho no apartamento. Sua vida virou um inferno. Passaram-se dez anos e Cristina, consumida de tanta preocupação, envelheceu 30 anos. Um dia voltaram à praia e Adolfo, alarmado, constatou que agora na história, não tinha apenas uma, mas duas velhas.