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sábado, 22 de março de 2008

Reflexões de Mutá


Por sugestão de Paulo Galo, do blog do galinho, um dos amigos de "cacos", estou aqui nesse paraíso onde somos todos amigos do rei. De lambuja encontrei hoje à tarde com todo o pessoal do Barlavento, isso é que é celebridade, indo tocar em Nazaré. Abaixo, reflexões sob a forte chuva desse sábado de aleluia.

Houve um tempo em que cada ser humano podia viver, no máximo, 100 anos. Esse era o tempo da ignorância.
Nietzche matou Deus e aguardava, com isso, muitas auroras. Não alcançou, coitado!
Marx quis matar o capitalismo com a doença infantil do comunismo. Ao deixar o lúmpem fora desse jogo cometeu um erro cruel e foi castigado pela história.
Freud estabeleceu o inconsciente, radical revolução de perspectivas, onde o eu não é dono nem de sua própria casa. Esbarrou no rochedo da castração.
Lacan superou o mestre, propondo a travessia do rochedo, a travessia da castração. Esbarrou na sua masculinidade e morreu como $ (sujeito barrado).
Hoje a psicanálise realiza o sonho de Lacan que, ao propor a propagação do discurso do psicanalista (1970), já não espera sua articulação e suas consequências. Coloca-as em ATO.
Qual o limite do homem? Pergunta oportuna para ano de jogos olímpícos. Realizada a metáfora do Nome do Pai, ou seja, dentro da Lei, não há limites.

domingo, 2 de março de 2008

Doce regresso

Depois de consumada, minha relação com Anax chegou a um bom termo: já de volta às nossas funções habituais, tenho me permitido pensar e fazer outras coisas que não ele e sua fantástica turma, que vou conhecendo aos poucos.
Relacionamento é uma das coisas que mais esgotam um ser humano, e eu, que já estava quase esgotada, agora retomo o quotidiano, que nunca me pareceu tão aconchegante.
Claro que não se sai de uma experiência dessas do mesmo modo que se entra, e estou pagando o caro preço da mudança.
Darei daqui notícias desse insólito romance.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

A salvação pela Matemática

Pitágoras de Samos, outro coleguinha de Anax, transformou o "sentido da via da salvação": no lugar de Dionisio, a Matemática. A purificação resultaria do trabalho intelectual, que descobre a estrutura numérica das coisas e torna, assim, a alma semelhante ao cosmo, em harmonia, proporção e beleza.
Usando a lógica, há uma distância infinita entre o número 0 e 1, os quais podem ser divididos infinitamente. Percorrer esse infinito é tentar chegar perto de como o inexistente se torna existente.
A atualidade desse pensamento é fantástica, uma vez que Lacan passou seus últimos tempos escrevendo números e mais números no quadro, enlouquecidamente, já sem ter quem o acompanhasse... (informações sobre Lacan, de Elizabeth Roudinesco, autora de uma biografia definitiva).

Anax sobe ao poder

Nos meados do séc VI a.C., a chefia da escola de Mileto passa a Anax. Como todo bom discípulo, avança o pensamento do mestre Tales, e afirma que o princípio de todas as coisas é o ápeiron (infinito e/ou ilimitado), animado por um movimento eterno. Para Anax, ao longo do tempo, os opostos pagam entre si as injustiças reciprocamente cometidas.
Como passar do indetermindado para o determinado, ou do inexistente para o existente, do eterno para o temporal, do justo a injustiça? Segundo Nietzsche, "quanto mais procurava aproximar-se do problema, indagando-se sobre essas questões - maior se tornava a noite.
Minha noite, ainda que iluminada pela luz da sua vela (Anax só dorme de vela acesa), também tem se tornado imensa!

A Escola de Mileto, ou minha nova turma, do que o amor não é capaz...

Tales de Mileto

Graças a Anax, ando numa turma muito vip agora, são seus amigos que vou conhecendo aos poucos. Tales (final do sec VII e início do sec VI ac), o fundador da Escola de Mileto, do qual herdou o codinome, o mesmo de Anax (portanto vcs não duvidem de um dia eu assinar por aqui Christiana de Mileto, de tanto que estou casadinha com Anax).
Paixões à parte, gostaria de mostrar aqui hoje algumas idéias dos seus amigos, tchurma que inevitavelmente passei a frequentar.
Tales achava que a água era a origem de todas as coisas. Outra idéia linda de Tales é que "tudo está cheio de deuses", numa alusão laica de que o universo é dotado de animação, que toda matéria é viva.
Alguns filósofos contemporâneos, a exemplo do querido professor Luiz Isidoro (RJ), orgulham-se de não serem pensadores de origem, de não se interessarem por esse tema. Para eles, o que importa são os fluxos que atravessam o sujeito, deleuzianos até a medula, mas eu não, claro que me interessa a origem, poderia dizer que sou uma pensadora da origem. Se a gente não sabe de onde veio, como vai saber para onde vai?

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Hoje, não, Anax, estou com dor de cabeça.


Como já comentei aqui, Anaximandro (Anax, para os mais íntimos) não me dá sossego desde o Carnaval. Como é possível um homem se entranhar tanto na cabeça de uma mulher, a ponto de não lhe dar um momento de folga?
Hoje radicalizei. Disse-lhe que não posso dar-lhe atenção hoje, que tenho outras coisas para fazer na vida, além de só pensar em pré-socráticos e na "culpa de existir".
Impressionou-me muito a atualidade desse pensamento, e é por esse único motivo que dei tanta colher de chá para Anax. Como é que um cara pensa uma coisa dessas, lá antes de Sócrates, 610 a.C. - c. 546 a.C. e esse pensamento continua atual até para os mais modernos psicanalistas franceses que eu conheço? Charles Melman e Marcel Czermak, lacanianos atuantes e vivos, insistem nesse tema também, e eu fico me perguntando: tem culpa eu?

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Circuito ultra mega vip



Vejam vocês como são as coisas: eu planejava passar um carnaval sossegado no ultra mega vip circuito Amaralina - Vilas do Atlântico, quando fui abruptamente interrompida por Anaximandro. Para quem não está ligando o nome à pessoa, é um dos pré-socráticos que postularam a "culpa de existir", depois apropriada por Freud, que não era besta coisa nenhuma.
Eu nunca quis muito papo com os pré-socráticos e achava que fazia muito bem de cuidar de Sócrates pra cá, que já tava de bom tamanho. Negócio de "pré" sempre me remetia ao pré-primário, uma escola café com leite. Mal sabia eu que Anaximandro tinha essa importância toda. Resultado: voltei ao jardim de infância da filosofia, que como todo jardim tem suas cobras bem escondidas prontas para dar o bote. Todo cuidado é pouco pra mexer com esses caras.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Nietzsche, sempre um alento!



Acima de nós uma estrela brilha perto da outra,
Em torno de nós ruge a eternidade. (do poema Colombo - Nietzsche)

"Suas idéias mostram que ela se aventurou até os confins extremos do que se pode pensar, no domínio moral como no intelectual, enfim: um gênio, tanto pelo espírito quanto pela alma" (Peter Gast, sobre Lou Salomé)

Para Nietzsche, Gast era um novo Mozart, cheio de beleza, calor, serenidade, plenitude, abundância de invenção. Agora ele não queria mais ouvir outra coisa e o wagnerismo lhe parecia pobre, artificial e cabotino.

Outrora eu tomei você por uma visão e uma aparição do ideal sobre a terra. Note: tenho uma vista muito ruim. (Nietzsche, sobre Lou)

Despudorada, infiel, traindo qualquer um com quem quer que surgisse à sua frente, ela é incapaz de delicadeza de coração, violenta, incerta, sem coragem, grosseira nas questões de honra. (Nietzsche, sobre Lou)

"Não fui eu quem criou o mundo, nem Lou. Se eu tivesse criado Lou, lhe teria dado certamente uma saúde melhor, mas sobretudo coisas mais importantes que a saúde e também talvez um pouco de amor por mim (embora isso não seja a coisa mais importante). (Nietzsche, numa carta que supostamente mandaria a Lou)

Egoísmo sagrado que paralisa a boa vontade - egoísmo de gato que não pode mais amar, essa vitalidade para nada, são o que me é mais odioso no homem

"Um homem meio louco, torturado por enxaquecas e que uma longa solidão desregulou" (o que Nietzsche achava que os amigos pensavam dele).

É muito mais difícil perdoar os amigos do que os inimigos.

Falar de heroísmo é falar de sacrifício e de dever, e precisamente de um dever de cada dia, de cada hora, é pois, falar de muito mais: a alma inteira deve estar ocupada por um único objeto, em comparação com o qual a vida e a felicidade são indiferentes.

Era a ocasião de provar a si mesmo que todos os acontecimentos são úteis, todos os dias santos e todos os homens divinos. (N. em carta a Overbeck, no Natal, rompido com a mãe)