terça-feira, 30 de outubro de 2007

A copa de 2014


charge de André Gonçalves

Pode ser que eu seja muito ranzinza, mas fiquei indignada com a escolha do Brasil para sediar a copa de 2014. Primeiro, aquela pataquada da comitiva: de Paulo Coelho a uma "ruma" de governadores (será que não tinham nada mais importante a fazer do que engrossar uma comitiva para farrear na Europa?);
Depois o patético discurso de Paulo Coelho (até hoje eu não acredito que seja o mesmo "Dom Paulete" tão carinhosamente chamado por Raul) comparando o futebol com o ato sexual, para concluir que o primeiro rende mais prazer, se é que eu entendi direito. Minha santa mãe de misericórdia! Será que metáforas futebolísticas são o nosso melhor destino?
Mas vamos ao ponto: todo mundo viu o que se gastou com o PAN (quatro vezes o orçamento inicial previsto). Nenhuma matemática do mundo pode justificar um desatino desses. Todo mundo sabe que se gasta numa pequena reforma doméstica 1,5 ou até 2 vezes mais do que foi previsto, mas mais do que isso, alguém está levando vantagem. Ou somos todos idiotas. Aí se argumenta que os gastos com o PAN são benefícios que ficarão para a cidade, como o uso dos estádios para maior democratização dos usuários. Gostaria de saber se isso está acontecendo no Rio. E, parece castigo, esse vexame do deslizamento do túnel. Do jeito que a coisa aconteceu, todo mundo se eximindo de suas responsabilidades, poderia ter acontecido durante o PAN que ninguém tinha antevisto isso, com medidas preventivas de contenção da encosta. Elementar, mas tudo aqui é assim, quando acontece o absolutamente previsível diante do desmando, todo mundo tira o seu da reta. E fica por isso mesmo. Impunidade, seu nome é Brasil! zil! zil! zil!
E vamos comemorar, porque a copa de 2014 é nossa! "Seus problemas acabaram!" como costuma brincar a turma do Casseta. Nada mais nos importa, nada nos atinge, vamos sediar a copa!
Deveríamos ficar atentos com o orçamento que vai nos custar mais essa "brasileirada" e que reais benefícios isso vai nos trazer.
Até agora (tá bom, também foi hoje o resultado, pode ser que esteja errada, tomara!) não ouvi uma única voz refletir sobre o tema, só festa. Como sempre.

Nietzsche, sempre um alento!



Acima de nós uma estrela brilha perto da outra,
Em torno de nós ruge a eternidade. (do poema Colombo - Nietzsche)

"Suas idéias mostram que ela se aventurou até os confins extremos do que se pode pensar, no domínio moral como no intelectual, enfim: um gênio, tanto pelo espírito quanto pela alma" (Peter Gast, sobre Lou Salomé)

Para Nietzsche, Gast era um novo Mozart, cheio de beleza, calor, serenidade, plenitude, abundância de invenção. Agora ele não queria mais ouvir outra coisa e o wagnerismo lhe parecia pobre, artificial e cabotino.

Outrora eu tomei você por uma visão e uma aparição do ideal sobre a terra. Note: tenho uma vista muito ruim. (Nietzsche, sobre Lou)

Despudorada, infiel, traindo qualquer um com quem quer que surgisse à sua frente, ela é incapaz de delicadeza de coração, violenta, incerta, sem coragem, grosseira nas questões de honra. (Nietzsche, sobre Lou)

"Não fui eu quem criou o mundo, nem Lou. Se eu tivesse criado Lou, lhe teria dado certamente uma saúde melhor, mas sobretudo coisas mais importantes que a saúde e também talvez um pouco de amor por mim (embora isso não seja a coisa mais importante). (Nietzsche, numa carta que supostamente mandaria a Lou)

Egoísmo sagrado que paralisa a boa vontade - egoísmo de gato que não pode mais amar, essa vitalidade para nada, são o que me é mais odioso no homem

"Um homem meio louco, torturado por enxaquecas e que uma longa solidão desregulou" (o que Nietzsche achava que os amigos pensavam dele).

É muito mais difícil perdoar os amigos do que os inimigos.

Falar de heroísmo é falar de sacrifício e de dever, e precisamente de um dever de cada dia, de cada hora, é pois, falar de muito mais: a alma inteira deve estar ocupada por um único objeto, em comparação com o qual a vida e a felicidade são indiferentes.

Era a ocasião de provar a si mesmo que todos os acontecimentos são úteis, todos os dias santos e todos os homens divinos. (N. em carta a Overbeck, no Natal, rompido com a mãe)

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Porque hoje é lua cheia




A lua cheia derrama todo o seu encanto no mar de Amaralina e (mistério!) continua cheia...

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

A loucura da arte de Peter Greenaway



Com a trilogia "As valises de Tulse Luper", Greenaway alcança o limite do improvável, do absurdo, do genial. A partir da vida de Luper, um eterno prisioneiro, conta-nos toda a história do século XX. Luper não se sentia estranho sendo prisioneiro, afinal, dizia ele, quem não é? Todos somos prisioneiros de alguma coisa, alguma pessoa, algum ideal. Ninguém é livre, esse é o pressuposto de Luper, um arquivista, arqueólogo e interessado em ciências naturais, que tem sua vida dissecada a partir de 92 valises. Do país de Gales para o deserto de Utah, EUA, para a Antuérpia, Bélgica, para a França, lá vai Luper, de prisão em prisão, de fronteira em fronteira, de idioma em idioma, vivendo tudo o que a vida tem para ser vivida. Esse trailler é uma pequena amostra do fantástico trabalho de direção de Greenaway. Vamos torcer para que chegue logo em DVD ou no circuito alternativo, já que a exibição na Walter da Silveira ficou prejudicada sem o último filme por motivos técnicos.

No http://adrulez.blogspot.com/ esse comentário atualíssimo, da recente presença de Greenaway no Brasil:

"Em São Paulo, onde esteve para o lançamento do Festival Internacional de Arte Eletrônica, o diretor brindou o público com cenas fortíssimas e reflexões inteligentes a céu aberto. E provou que existem muitas formas de se contar uma história sem precisar recorrer à cronologia, ao linear, e o mais impressionante: às palavras."

Segundo o cineasta, que já foi pintor: "O cinema como meio de comunicação de idéias está morto. A produção contemporânea é entediante. Em 10 minutos de filme já se sabe o que vai acontecer, como vai acontecer e de que forma vai terminar. A psiquê humana precisa de novidades. O cinema precisa desesperadamente ser reinventado, assim como qualquer mídia tem que se reinventar (...) Esses 112 anos foram apenas o prólogo do cinema."
Peter Greenaway
Mais detalhes no site http://petergreenaway.co.uk/tulse.htm
É filme para se ter em casa, e ver, e ver de novo, e ver sempre.

sábado, 13 de outubro de 2007

Autran, bem mais que Resíduo

um premonitório aviso do que fica: resíduos.



No caso de Autran, ficam bem mais do que resíduos. Autran era daqueles caras que mereciam ser imortais. Sensível, brilhante na sua longa carreira de ator de teatro e algumas novelas, mas principalmente um grande ser humano, tolerante, bem humorado, lúcido ao extremo, realmente, não era pra ele ir agora. A quem devo encaminhar reclamação por tão grave erro de cronograma? Fica aqui a nossa mais profunda saudade.

domingo, 7 de outubro de 2007

Millôr, eterno Millôr!

"Representação é o alucinógino da organização social chamada democracia. Temos 479 representantes de nossas necessidades e ambições sociais - 479 deputados! Uma sociedade precisa de tantos? Por que não diminuir para 10? Ou melhor, nenhum?"

Nova edição da "Bíblia do Caos" já à venda. Corram! É um presente infalível para todas as ocasiões. E faz pensar, antes de qualquer coisa, além de rir, que é sempre o melhor remédio!

Outros poemas/Henrique Wagner

De portas abertas

As funerárias pequenas e grandes,
de portas sempre abertas
mesmo se as ruas estão fechadas,
ou se um velho passeia de mãos dadas
com sua neta,
ou um casal de senhores namora cedo
quando a manhã principia,
ou quando um cachorro passa com pressa
antes que se termine a via,
ou quando os pais levam seus filhos cedinho
para a escolinha ou o parquinho,
ou quando o sol começa a aguar
o sorvete da menina com um vestido azul,
ou quando a surpresa nos incomoda
ao nos depararmos com essas antigas lojas eternas,
a vender uma velha forma de se esconder a vida.

(Poema publicado no livro "As horas do mundo", edição esgotada). Publiquei Henrique Wagner inspirada no surpreendente poema de nilson pedro, do blag, que trata do mesmo tema, do inevitável tema, vida/morte, nilsonpedro.wordpress.com Visitem!

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

De Londres, fotos exclusivas de manifestação em solidariedade ao povo de Mianmar!








Recebi esse email com quatro fotos exclusivas de uma manifestação, em Londres, em solidariedade ao povo de Mianmar. Era para escolher uma, não resisti, as fotos enviadas pela jornalista Hilda Fausto, em viagem a Londres, são todas absolutamente necessárias. Os brutamontes de Mianmar não vão achá-la mais em Londres, já escapuliu pra Madri.

Vejam o email:

Aí estão as fotos... com vê, não estão lá essa coca-cola...
queria ter feito uma foto segurando a bandeira da birmania, mas não foi possível... de qualquer forma. fiquei emocionada qdo me deparei com a manifestação, que não sabia que tava rolando... isso aconteceu no domingo pela manhã, dia 30 de setembro (acho que uma ação que ocorreu em várias partes do mundo), na Trafalgar Square, palco da grandes manifestações políticas da Inglaterra e também onde está instalada a National Gallery, uma das mais importantes da cidade.
Bjs.
Hildinha


Isso é que eu chamo de "auxílio luxuoso", como diz Luiz Melodia: "E o auxílio luxuoso de um pandeiro, até sonhar de madrugada, uma moça sem mancada, uma mulher não deve vacilar". A propósito, a prêmio Nobel da paz de Mianmar, Aung San Suu Kyi, é uma mulher que não vacila: o marido e os filhos foram exilados para Londres, onde o marido depois morreu, e ela preferiu ficar em seu país, em solidariedade aos presos políticos. Nem ao enterro do marido pôde ir. Está em prisão domiciliar há 10 anos.

Liberdade ao povo de Mianmar!!! Isso já está passando de todos os limites aceitáveis!!!

O enviado da ONU para Mianmar é o brasileiro Paulo César Pinheiro, para sorte da imagem pública da anta Celso Amorim, mas duvido que ele tenha mexido uma palha para isso, foi uma decisão da ONU mesmo. Amorim, como já comentei aqui, se recusou a assinar sanções contra os militares de Mianmar, como fizeram vários países, dizendo que isso era intromissão em política interna de outro país, que o que ele poderia fazer era "reforçar a democracia". Como assim, cara pálida?

Para apoio aos manifestantes de Mianmar e impedir a repressão violenta aos monges e à população, assine já!

Vá ao link:

http://www.avaaz.org e assine o manifesto, preenchendo nome, email e país de origem.
Em poucos dias a petição ganhou o apoio de 638.352 pessoas de todo o mundo, até a hora que votei.

Queremos chegar a 1 milhão de assinaturas, ajude-nos a divulgar a campanha.

http://www.avaaz.org

domingo, 30 de setembro de 2007

Santiago. Uma pausa para a delicadeza.


Não podia ter feito uma escolha melhor para encerrar o meu cansativo domingo. Depois de ter cumprido o meu dever, um trabalho que começou sexta e só terminou hoje à tardinha, resolvi ir ao cinema. Ia assistir "Hércules 56", documentário sobre a troca dos presos políticos pelo embaixador alemão, no cinema do Museu, meu preferido. Quando vou confirmar no cineinsite vejo, desolada, que excepcionalmente hoje não haveria a sessão de 20:45, a única que ainda daria tempo de pegar. Não suporto frustração. Eu quero pouco, eu quero dizer, eu não quero coisas difíceis, mas quando eu quero, eu quero muito. Já li que um sinal de maturidade é a capacidade de aguentar frustrações. Se for me basear nesse critério, sou a pessoa mais imatura do mundo. Qualquer frustração, por mais besta que seja, me tira do sério. Resolvo ver outras possibilidades de filmes, irritadíssima, quando me deparo com "Santiago" na Sala de Arte da UFBa. Outro defeito meu: sou avessa a lugares novos, pô, o cinema do museu é tão charmosinho, aquele café, imagino o que não deve ser essa tal sala de cinema da UFBa! pensei, cá com os meus botões. Mas João Moreira Salles merece qualquer sacrifício, continuei pensando, e estava mesmo muito a fim de ver esse filme que ele fez sobre um mordomo que serviu à sua família por 30 anos.
Lá fui eu! Lugar novo = trajeto novo, possibilidade de retorno duvidosa, estacionamento desconhecido, continuei irritada. Tudo isso foi facilmente contornável e cheguei ao local. Uma boa surpresa! Um mural lindo, iluminado, me dá boas-vindas. Estacionamento facílimo! Outra boa surpresa: o café charmosinho também existe lá. E a melhor e mais gratificante surpresa da noite: o filme.
Só para tirar onda, conheço João Moreira Salles desde o tempo em que ele escrevia para o NO (antes desse virar nomínimo, de saudosa memória!). A onda começa agora: tive a cara de pau de mandar para ele um trabalho de arte que fiz para concorrer ao Salão do MAM da Bahia em 2000. Meu trabalho foi recusado, mas eu gostava muito e queria a opinião de alguém abalizado. Mais abalizado que João impossível, ele tinha uma coluna de crítica de arte no NO e eu não perdia uma. Maior não foi a minha surpresa ao receber um email dele, maravilhoso, do qual sobraram vestígios na minha confusa memória, nem de longe tão surpreendente como a de Santiago, o mordomo do filme. Dizia mais ou menos assim: "O que esses jurados do MAM pensam? Que vão encontrar um Boticceli em cada esquina? Seu trabalho reúne duas qualidades raras: Concisão e Eloquência". Pronto! Ganhei muito mais que qualquer prêmio do MAM poderia me dar. Um elogio pessoal de João. Depois ele ficou como convidado do nomínimo, muito espaçadamente escrevia, para minha tristeza. Ensaiei algumas vezes ver o documentário que fez sobre as últimas semanas da campanha de Lula, Entreatos, mas nunca levei a cabo. Até que agora aparece esse deslumbre de filme chamado, simplesmente, Santiago.
É daqueles filmes que se sai do cinema com a enlevada sensação de que valeu a pena ter vivido só para ter o privilégio de ver uma obra dessas. Uma obra rara, de uma simplicidade e delicadeza quase singulares.
Ele tentou fazer o filme há 13 anos, fez o roteiro e algumas cenas com Santiago, mas depois não concluiu, até que uma amiga resolveu ajudá-lo a dar um destino a tão original enredo. E é exatamente o que ele faz: contar pra gente o que ele tinha pensado, porque tal cena era assim, memórias da sua infância atravessadas pelo olhar e pela genuína riqueza interior de Santiago. Amante de castanholas e de dinastias as mais diversas, 30 mil páginas escritas, Santiago pôde, com essas escolhas, livrar-se da melancolia de uma vida que não tem mesmo sentido, na opinião de meu amigo João. Sorry, periferia!

sábado, 29 de setembro de 2007

Opinião de Caio Blinder/Nova York

China é a grande cúmplice dos generais de Mianmá
28/09 - 07:27 - Caio Blinder, de Nova York

NOVA YORK- Em nome dos seus interesses estratégicos e econômicos, a China é um país reacionário, avesso a necessárias mudanças de regime e capaz de se aliar com governos abjetos como a junta militar em Mianmá -que está matando monges budistas e outros manifestantes pró-democracia. Vou repetir: o país reacionário é a China e não os habituais suspeitos habituais ocidentais, a começar os EUA. O governo Bush desta vez está realmente no lado certo da história com suas denúncias e pressões contra um bando de corruptos trogloditas fardados no sudeste asiático.


Mas esta escalada de violência no país vizinho também representa um desafio ao regime chinês, preocupado em forjar uma nova imagem internacional como um "acionista responsável" da ordem mundial, para usar a expressão de Robert Zoellick, hoje presidente do Banco Mundial e que negociou muito com a China quando atuava na diplomacia do governo Bush.

O mundo civilizado espera uma atitude da China. Na quinta-feira, Bush recebeu o ministro das Relações Exteriores chinês, Yang Jiechi, para uma reunião não-programada na Casa Branca para dar um recado: Pequim deve "usar sua influência" para forçar os militares de Mianmá a promover uma transição para a democracia.

Após lavar as mãos no começo da crise dizendo ser contra a interferência em assuntos internos, Pequim agora faz um pouco de média. Pede que "todas as partes" se contenham, ou seja, tanto os brutamontes armados, como os monges pacifistas.

A incompetência dos militares de Mianmá perturba os chineses mais do que sua brutalidade. Para a China, desenvolvimento e estabilidade são mais importantes do que democracia. O fundamental é que o vizinho garanta os suprimentos energéticos para a China superemergente. O problema é que os governantes de Mianmá transformaram um país com ricos recursos naturais no mais miserável do sudeste asiático. Ali na fronteira chinesa, existe uma fonte de instabilidade.

Os chineses começam a entender que precisam carregar uma parte da carga da governança global e não apenas pegar carona, assegurar seu acesso a recursos energéticos e matérias primas e denunciar os vexames da política externa americana. Hoje os chineses cooperam na luta antiterrorista e finalmente concordaram em participar das operações de pacificação na região sudanesa de Darfur, palco de um genocídio, ao invés de se preocuparem apenas em descolar petróleo.

Aliás, a relutância chinesa para apoiar a intervenção na África (contra os interesses do seu aliado, o governo do Sudão) fez com que fossem lançadas campanhas nos EUA e Europa de boicote aos jogos olímpicos de Pequim em 2008. Os chineses não querem que as túnicas cor de alçafrão ensaguentadas dos monges budistas manchem ainda mais sua imagem quando se empenham em ganhar medalha de ouro de responsabilidade com as Olimpíadas do ano que vem. Só falta combinar a tática com os generais de Mianmá.

E o pau continua comendo em Mianmar!

Para quem está estranhando e nunca ouviu falar de Mianmar, é a antiga Birmânia que mudou de nome. As notícias que conseguem vazar são as piores possíveis! Parece que já passam de 200 os mortos nos conflitos de rua num verdadeiro massacre perpetrado pelos militares. Os monges já não são vistos, parece que todos os mosteiros estão ocupados por militares e que estariam em verdadeiros campos de concentração no interior do país. A China, país vizinho, já está preocupada com os jogos olímpicos, de como será a repercussão disso no mundo todo. O Japão, que teve um jornalista assassinado em frente às câmaras, mandou representante oficial para apurar os fatos. O regime militar, em diferentes fases, existe há 40 anos. É um regime autoritário, com pequenas fases de abertura, mas violento, parecido com os períodos de ditadura militar no Brasil, mas dentro de uma cultura diferente, numa sociedade budista. Tirando as diferenças culturais, é um regime militar autoritário como qualquer outro. Agora todo o contato por internet está bloqueado, com boatos de que os militares estariam usando vírus em blogs. É inconcebível que atrocidades desse tipo ainda tenham lugar em nossos dias. E a nossa inoperante política externa nem um piu!

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Monges e população protestam em Mianmar

Imagens do protesto de Mianmar, já conhecida como a "revolução açafrão" devido às cores vermelho e laranja das roupas dos monges

Celular e blogs viram "armas" em Mianmar


Da AFP

Graças às novas tecnologias da comunicação, as manifestações contra o regime militar em Mianmar são acompanhadas por todo o mundo, ao contrário do ocorrido em 1988, antes da internet, quando poucas informações sobre a sangrenta repressão "vazaram" para o resto do planeta.

A onda de protestos mantém semelhanças com o movimento pela democracia de agosto de 1988, que os militares abafaram com armas e que deixou cerca de 3.000 mortos.

Como há 20 anos, também agora o povo saiu às ruas por reivindicações de ordem econômica em um país onde uma família em cada quatro vive abaixo da linha de pobreza.

Mas ao contrário de 1988, as imagens e as informações procedentes de telefones celulares, câmeras de vídeo digitais e blogs na internet que conseguem passar pelas redes de censura do governo, permitem levar ao mundo o testemunho dos acontecimentos.

"Graças à tecnologia, a situação é completamente diferente. Todos, em todo o mundo, podem acompanhar graças à internet o que acontece em Mianmar", afirmou Said Win, chefe de redação do "Mizzima News", um grupo de comunicação com sede na Índia e dirigido por birmaneses no exílio.

"É realmente o resultado da globalização. Queira a junta ou não, o governo já não pode isolar o país do restante do mundo", acrescenta.

No entanto, desde o início dos protestos contra o aumento dos preços dos transportes públicos, o regime militar reduziu consideravelmente o acesso à internet.

Mas cerca de 200 cafés virtuais continuam funcionando em Yangun, a maior cidade do país, permitindo que os estudantes transmitam vídeos e fotos tiradas com seus telefones celulares e câmeras digitais.

"Os jovens sabem como escapar do controle na internet. Recebemos imagens não só de Yangun como também de Mandaly", segunda maior cidade do país, explica Aung Din, diretor da US Campaign For Burma, grupo de oposição ao regime militar com sede em Washington.

Saiba mais

» Polícia prende 100 monges budistas em mosteiro de Mianmar

» Após mortes de monges, ONU enviará representante a Mianmar

» Confrontos com soldados deixam dois monges mortos em Mianmar

Aung Din, que participou das manifestações de 1988, constata uma enorme diferença. "Em 1988, não tínhamos estes meios, especialmente a internet, para fazer com que as mensagens deixassem Mianmar. Ninguém na comunidade internacional estava ciente das primeiras manifestações. Desta vez, todo mundo está informado", afirma.

A "Gazette de Mandalay", com sede na Califórnia, também recebeu dezenas de fotografias e vídeos enviados de Mianmar, país classificado pelas Nações Unidas entre os 20 mais pobres do mundo, que vive sob o jugo dos militares desde 1962.

"Tanto os monges budistas como os estudantes utilizam seus telefones celulares para nos enviar fotos. De certa forma, a internet elimina as diferenças" entre eles, considera um jornalista da Gazette, que solicitou o anonimato.

Para a associação Repórteres Sem Fronteiras, Mianmar, "paraíso dos censores", é um dos países do mundo onde há menos liberdade de imprensa.

(Aqui termina a notícia da AFP) Agora comentário de "cacos": E a nossa tíbia política externa, na figura daquela inoperância chamada Amorim, não quis indicar na ONU sanções para os militares de Mianmar, alegando que o que se pode fazer é fortalecer a democracia. Ah, tá!

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Uma ovelha. Nem negra, nem desgarrada.




Querem fazer de nós um rebanho de cordeiros que não berram ao ir para o matadouro.
Péra aí! sujeito oculto: eles.
Eles quem? Os pensadores da falida política da verticalidade, da representação.
Parece, para "eles", que não há outro caminho possível, depois da "derrocada" do século XX (campos de extermínio e armas nucleares). Olvidam (gostaram do olvidam?) Tá bom, esquecem, parece que de propósito, que toda a tecnociência com fins bélicos um dia se "civiliza", na feliz definição de Paulo Sérgio Duarte, quer dizer, vem servir aos civis.
Comigo não, violão! Não sou mais cabrito, aliás nem sou mais cabrita, sou uma ovelha a pastar num campo sem cercas, berrando baixinho de vez em quando, só para não me esquecer de todo a minha natureza de ovelha.
A Internet, por exemplo, só para ficar num campo mais próximo, foi desenvolvida para fins militares, no auge da guerra fria. Hoje é esse território livre que todos conhecemos, possibilitando dar vez e voz a uma multidão cada vez mais crescente, "monstruosa" mesmo, no dizer de Ivana Bentes, de singularidades. E tome-lhe criatividade, engenhosidade humana desenvolvendo novos e surpreendentes desdobramentos e possibilidades.
O menino de 17 anos que desbloqueou o I-phone, por exemplo, é um ícone desses novos tempos de inusitadas revelações.
"Eles" querem política? Então, tá. Um adolescente na frente de um computador, eis a nova célula revolucionária.

O mundo fica mais triste sem Marcel Marceau!




Lamento informar, senhores, mas perdemos o grande mímico francês Marcel Marceau, domingo, dia 23, aos 84 anos. Participante da resistência francesa, Marcel ficou mesmo conhecido como um original mímico, que conseguia se comunicar com todo o planeta através da sua elegante arte. Segundo um obituário, "O homem preso pelo silêncio. O mais eloqüente de todos os discursos". Saudades...

domingo, 23 de setembro de 2007

continuando...

Diante de tanta informação do seminário, acabei por descobrir muita coisa interessante, com a ajuda do "santo google" como diz Millôr, como o "Manifesto pela Metade" de Jaron Lanier, dêem uma olhada para vcs verem o q se discute hoje como perspectiva da cibercultura. Até em totalitarismo cibernético já se fala, ou seja, é um campo aberto a muitas e algumas delirantes projeções, de como serão os computadores do futuro, se a inteligência artificial superará a humana, enfim, temas do mais relevante interesse. Esse cara, o Jaron, com o seu irônico "Manifesto pela metade", irônico até no nome, é incisivo quanto às loucuras que se cometem em nome da cibercultura. Eu adorei, apesar de desconhecer um grande número de cientistas q ele citou, assim como desconhecia a Lei de Turing e o seu famoso experimento imaginário. "É pedido a um juiz humano que determine qual entre dois respondedores é humano, e qual é uma máquina. Se o juiz não souber, Turing afirma que se deverá considerar que o computador alcançou o status moral e intelectual de um ser humano". Tudo isso está lá, no Manifesto pela Metade. Aconselho a leitura e uma vagarosa digestão, porque tem pano para várias mangas. Fica aqui um convite para reflexões...

sábado, 22 de setembro de 2007

Nietzsche e a Arte

Até que enfim um alívio para as minhas expectativas! Ontem o seminário foi sobre "As duas mutações de Nietzsche", segundo o resumo "...a transvolaração de todos os valores, ou seja, a auto-supressão da moral socrático-platônico-cristã, ensejando o resgate da inocência do vir-a-ser, para além de toda culpa e expiação." O palestrante, Oswaldo Giacoia Júnior, professor de Filosofia, elegantérrimo, de uma finíssima perspectiva intelectual, trouxe-nos uma difícil mas instigante possibilidade de auto-determinação, para além do bem e do mal, humano, demasiado humano, há tantas auroras que não brilharam ainda! Isso é que é visão solar.
E hoje, sexta, tivemos a feliz apresentação de um crítico de arte, Paulo Sérgio Duarte, com o tema "Metamorfoses da Visibilidade", simplesmente fantástico! Mostrando as diversas mutações que a arte já enfrentou, o quanto isso deve ser visto como camadas geológicas, onde a mais recente não é melhor nem pior que a anterior, apenas veio depois. Falou também, até que enfim alguém tinha que falar disso nesse seminário, sobre os novos paradigmas que têm que ser construídos agora, num momento histórico onde cada vez mais o trabalho intelectual substitui o trabalho manual, a mais-valia deixa de ter importância, o próprio movimento sindical, em função disso, se enfraquece, e temos q pensar novas formas de fazer política. A progressiva perda de poder do Estado-nação, na medida em que qualquer investidor hoje pode, do seu computador, resolver se investe em Hong-Kong ou em qualquer outro país, o fluxo de capitais, o fluxo de pessoas, cada vez mais fora do controle dos Estados-nação q têm q ser repensados. É isso aí, Mutações agora toma um outro sentido. Felizmente!

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Greve!

Hoje, deliberadamente, não fui ao Seminário "Mutações", motivo de comentário do minha última postagem. Já estava insatisfeita com o rumo que as coisas estavam tomando naquele ambiente, uma falta de perspectiva total, pessimismo metafísico elevado ao seu último grau, até que resolvo ler sobre a palestra que haveria hoje, quarta. "As mutações do poder e os limites do humano", por Newton Bignotto, prof. de filosofia da UFMG. O resumo: "A partir dos relatos de sobreviventes dos regimes totalitários contemporâneos se podem mapear os caminhos da bestial descida aos infernos sem a perspectiva do paraíso". Deus é mais! como se diz por aqui. Prefiro a esperança de Caetano quando fala "não espero o dia em que todos os homens concordem, apenas sei de diversas harmonias possíveis sem juízo final".
Amanhã, cujo tema será "As duas mutações de Nietzsche", com Oswaldo Giacoia Júnior promete ser mais animado e eu vou. Qualquer coisa, desabafo aqui.

Ainda Mutações!

Esse seminário ainda vai acabar comigo! A palestra hoje foi com Franklin Leopoldo Silva, prof. do Depto. de Filosofia da USP. Baseado em Bergson e Sartre, passando rapidamente por Marx, o palestrante nos deu um quadro sombrio de presente e quase assustador de futuro. Disse q o progresso, considerado no século XIX como a salvação da humanidade, foi desmentido por todo o século XX, e q hoje, o acúmulo quantitativo de tecnologias gera indiferença e homogeneidade, fala de um verdadeiro tédio do progresso, já que as novidades não são mais que previsíveis e rapidamente superadas por outras. A tecnociência a serviço do poder bélico impõe-nos um totalitarismo de fato. A democracia formal, destituída de ideologias (possibilidades de crenças) não faz mais q estabelecer o desaparecimento da política. Terminou com uma frase de Walter Benjamin que chegaria um tempo onde "tudo é sempre novo e sempre igual". Não aguentei e fiz uma pergunta. Claro q muito cuidadosamente, para não ferir susceptibilidades, mas inverti quase tudo do q ele disse, propondo outra via para se pensar nesse "acúmulo quantitativo" não como um gerador de indiferença e tédio, mas de progressiva inclusão social. Citei um outro palestrante que trouxe os avanços da nanotecnologia, com um vídeo onde mostra um paciente totalmente paralisado que conseguia operar um computador apenas com o cérebro. É isso mesmo! não era com o olhar ou com o alfabeto do físico Stephen Hawkings, q é fantástico mas não é novidade, mas com o cérebro mesmo, ele pensa e o computador responde. Uma coisa fascinante, uma máquina de ler pensamentos. Citei também o menino de 17 anos que conseguiu quebrar o bloqueio do I-phone, antes de ser lançado, como uma prova da engenhosidade humana ilimitada, capacidade criativa inesgotável, e é claro que isso servirá a toda a humanidade, de um jeito ou de outro (aqui acaba minha pergunta), basta pensarmos (isso eu não incluí na pergunta) que morríamos de tuberculose, além da sífilis, é claro. São visíveis os ganhos para a humanidade dos progressos científicos, do aumento da longevidade, da diminuição da mortalidade infantil, apesar de ainda termos que conviver com dramáticas situações de miséria e mortes por fome, além de guerras absurdas e levadas a cabo por interesses energéticos. Mas a ciência está aí para nos fazer melhores e a criativade humana para pensar rapidamente numa alternativa energética menos devastadora do que essa do petróleo, para dar um fim a esse inferno vivo q é o oriente médio. Sem contar os problemas religiosos, mas a humanidade chegará à maturidade de não precisar brigar mais para ver de quem é o deus melhor. Terminada minha pergunta, lá em cima, o prof. severamente respondeu-me: "Não estamos melhores. Esse era o pensamento do século XIX, veja o exemplo fracassado das cidades, por exemplo, com sua horda de excluídos. Os periféricos hoje já buscam se organizar e escolher o q devem ou não, o q querem ou não para suas realidades, não querem repetir os padrões da classe média, e isso é um avanço, mas muito pontual. Como vc sabe, o sistema é muito poderoso e coopta tudo, até os movimentos de resistência (veja os punks de boutique, parênteses meu)". Fiquei insatisfeita, é claro, com a sua resposta, primeiro por ele priorizar a política, a velha e vertical política como apanágio para todos os males. Se não estivéssemos indeferentes à política, segundo ele, essas coisas não estariam acontecendo. Acabei de escrever um post sobre política e poder, no caso Renan, e não gostaria aqui de repetir isso. Apenas salientar as possibilidades de um exercício de poder cada vez mais horizontal, no lugar da ditadura do pensamento único ou de democracias falidas. O engraçado é q eu sempre digo, arrogantemente, q nasci no século errado, pensando q seria melhor nascer lá pelo século 42, ou algo assim, e fui mandada de volta para o século XIX, sem o menor escrúpulo, pelo professor. Com exceção da palestra do prof. Jean-Pierre Dupuy "a fabricação do homem e da natureza", que tratou da Nanotecnologia, parece q não estou num seminário sobre Mutaçoes, mas sobre Melancolias de Sistemas Ultrapassados, cujos paradigmas já não servem para dar conta da nossa realidade.

domingo, 16 de setembro de 2007

outras idéias/Heinz von Forster

Tive contato com esse curioso teórico no seminário "Mutações: novas configurações do mundo" Cultura e pensamento em tempos de incerteza, promovido pela Fundação Pedro Calmon e idealizado por Adauto Novaes. Valeu, entre outras coisas, por conhecer, com a ajuda do google mais tarde, aspectos paradoxais do pensamento desse cara, criador da cibernética da segunda ordem. Foi organizado em Viena, em 2003, um Congresso com base em 3 imperativos éticos formulados por Heinz von Förster (um em cada dia): 1) 'Se queres permanecer o mesmo, mude'; 2) 'Se queres ver, aprenda a agir' e 3) 'Aja sempre de modo a aumentar o número de possibilidades'.
Voltarei a comentar sobre esse seminário quando terminar (ainda estamos no meio do encontro).